Várias Facetas, Várias Vidas - 7ª Parte, Capítulo 2

VICTOR

 Acordo cedo, depois de uma noite em que inacreditavelmente não fui à uma rave. Não sei por que, pela primeira vez em cinco anos, desde que saí daquela droga de hospital, não senti vontade de sair. Não dei o tapa no baseado, não procurei o ecstasy. Estou limpo há dois dias. 
Minha cabeça dói, talvez pela abstinência. Talvez por ter comido mal ontem. Talvez porque eu mereça que ela doa o resto da minha vida, para não esquecer o porque de eu estar como estou hoje. 

Pego uma roupa que acho mais ou menos limpa, e resolvo sair, como sempre, para sentar nas escadarias e ver o mundo passar. Ver as pessoas ocupadas, indo para seus trabalhos, algumas sorrindo, algumas reclamando da vida. Enquanto me visto, olho de soslaio para a guita. Cinco anos sem ser tocada... eu deveria ter vendido, teria ajudado a custear o tempo naquele bendito hospital. Mas parte de mim tinha pena, por ser minha companheira constante. Além de uma pequena esperança de poder tocar pelo menos um acorde de novo. Mas ela está lá. Dentro do estojo, deitadinha em um canto da minha cama, mostrando cada vez que acordo a vida que eu tinha e lembrando a dor de ter meus sonhos interrompidos, cortados junto com minha mão. 

Chego mais perto da cama e pela primeira vez em cinco anos abro o zíper da capa. Com expectativa e receio, afinal depois de tanto tempo deve estar arruinada. A caixa de som no canto do quarto também está lá, com uma camada de poeira em cima. Aquela era a única vida que eu conhecia, e agora estou pseudovivendo em uma penumbra que me tortura continuamente. 

Termino de abrir o zíper. Como eu esperava, claro que as cordas da guita já estão deterioradas. Com minha mão esquerda tremendo, arrisco mexer um pouco. Será que ainda lembro como se fazem os acordes?
Uma nota tímida sai das cordas enferrujadas, evocando uma época em que eu fazia loucuras com elas. Lembro perfeitamente da música Enter Sandman, que era uma das minhas preferidas, e de várias ocasiões em que eu enlouquecia criando solos para as músicas que o Eric compunha. 

Eric, cara... por que você teve de partir tão cedo? Você estava noivo, cara, estava tão feliz! Vander... será que você algum dia voltará a falar comigo? Será que neste quarto abandonado à poeira ainda tem a caderneta com seu telefone marcado? 
Será que aquela moça que conheci ontem já esteve em algum show nosso? 

Começa a chover, e desisto de sair. Entrego-me às recordações, ao ver meio que soterrado pela poeira, em cima da caixa de som, um álbum com as fotos da nossa banda. Nossa, quantos shows! O futuro parecia sorrir naquele tempo. Estávamos a pouco tempo de conseguir gravar nosso primeiro CD em estúdio. Onde será que foi parar o caderninho com as composições do Eric, estarão com a noiva dele? Onde ela está? 
Detenho-me mais um tempo observando as fotos, e lamento pelo fim da banda. Será que precisava mesmo acabar assim? 
E, será que vale mesmo a pena eu ter lutado durante cinco anos para sufocar uma dor que não passa? Será que eu não deveria tentar ser feliz apesar de tudo? 
Enquanto penso nisso, a imagem de um sorriso fica flutuando em minha mente.

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