Várias Facetas, Várias Vidas - 10ª Parte, Capítulo 02

VICTOR


A noite virou dia, e estou ainda aqui. Já muitas vezes virei a noite, mas não lembro se alguma vez já havia prestado atenção ao nascer do sol, como hoje.
Sexta-feira, é isso? Nossa, sexta-feira. A semana passa depressa. Resolvo sair, fazer algum bico, estou sem nenhum e pretendo comer pelo menos uma vez durante o dia de hoje. Remexo o bolso e encontro uma nota de dois reais. Vai dar para um suco desses de barraquinha, mas agora não... está tão bom terminar de ver o sol nascendo, sentir o calor dos primeiros raios batendo de mansinho.
Caramba, o que está acontecendo comigo? Eu não sou dessas coisas. Hum... acho que dá para esperar um pouco antes de sair, vou tirar um cochilo depois como algo com os dois reais e vou catar alguma coisa para fazer.

Sinto o sol entrando com força no quarto. De novo deixei a janela aberta! Confiro o relógio de pulso: meio dia! Como vou passar a tarde hoje? 
Continuo com os dois reais no bolso, vou pegar algum desses sucos de barraquinha e ver se tenho alguma coisa na geladeira.Depois é só pegar estrada.

O dia correu velozmente, já são cinco e meia da tarde. Pessoas apressadas começam a tomar a rua, gente voltando de seus trabalhos ou já procurando algo para curtir. Tenho algo no bolso depois do dia de hoje, mas antes de me enfiar em algum lugar para curtir, vou caminhar mais um pouco, a esmo. Nossa, há tempo não passava por este lugar! Bancos e mais bancos, gente sentada, conversando... que planos estarão fazendo? Será que tem mais gente com sonhos interrompidos por aqui, como aconteceu comigo?

-Ô, sua maluca!
 
O grito me tira dos devaneios. Vejo uma mulher, uma moça, parar a bicicleta e sentar-se em um banco. Sua expressão um tanto assustada não me parece estranha. 
Suzana! Acho que é esse o nome dela, mas não lembro bem. 
Foi depois que ela apareceu que algumas coisas mudaram em mim, depois daquele dia em que eu estava pateticamente chorando em uma calçada, mandando o mundo todo à merda em minha cabeça. 
Sinto uma preocupação e ternura por esta moça, vendo seu semblante preocupado. Depois de um breve instante de incerteza, decido-me a falar com ela. 
 
-Ei! 
 
Ela levanta a cabeça,esboçando surpresa. 


- Oi.. dia ruim? Eu reconheci você, e pensei em agradecer pelo outro dia.. desculpe se..
- Não, tudo bem.. estou tendo mesmo um dia ruim, mas você não tem culpa. Aliás, fico até um pouco contente em te ver... você parece estar melhor! 
- Sim.. você... eh... 
- Suzana.
- Suzana. Eu precisava de alguém que se importasse, e você apareceu em um momento em que eu estava me questionando muito. Talvez um dia eu conte toda minha história.. se você tiver paciência, é claro. 
- Claro. 
-Agora, é hora de eu ouvir você... Se você quiser..
 
- Victor.. é isso, né?
- Isso. Você lembrou melhor que eu. 
Já que não deve se entupir de ecstasy e baseado como eu, penso. 
- Você quer mesmo me ouvir?
- É o mínimo que posso fazer. 
- Tudo bem - Ela respira fundo,deve ser algo bem cabuloso mesmo - eu trabalho em uma empresa há cinco anos. Um emprego bom, uma equipe que se relaciona muito bem, muito bem mesmo. E hoje.. bem... 
Suzana começa a chorar, respira fundo novamente, e esforça-se para contar:
- Hoje recebemos a notícia de que nosso chefe, o dono da empresa, faleceu em um acidente horrível, quando voltava para cá. 
- Ele devia ser muito importante para você, não?
-Sim.. foi... ele sempre acreditou em mim e me incentivou, mesmo quando eu própria não acreditava... Eu tive um período,do qual ainda não me livrei, em que minha autoestima ficou muito baixa, eu estava achando minha vida uma porcaria, um marasmo, não sabia mais o que queria. E ele percebeu, conversou comigo. Sempre me tratou como uma filha. 
- Devia ser alguém realmente bom, para você estar tão triste. 
- Pois é... e..acho que o corpo chega amanhã.. não sei se tenho coragem para ver o enterro, mas preciso.. Se eu tivesse falado tudo o que sentia, falado de toda minha gratidão quando pude.. 
Suzana começa a chorar de novo. 
-Sr. Geraldo... coitado! 
Geraldo? Será que...
- Suzana... Geraldo? Qual o sobrenome dele?
-  Martins.... Victor.. você está bem? O que foi? 
- Nada, Suzana. Lembrei de algo agora. Eu... você se importa? Preciso ir agora. 
- Não, Victor. Pode ir... vou para casa antes que escureça demais, estou de bicicleta e preciso avisar minha mãe. 
- Tchau, então.. a gente se vê. 
- Ok. 

Suzana pega a bicicleta, vai embora lentamente. Fico uns instantes vendo-a sumir em meio à multidão que fervilha a rua. 

Geraldo Martins! Não dá para acreditar! 
Meu pai! Há tempos não nos falávamos... ele tentou várias vezes me buscar, me trazer de volta para a casa dele, mas eu nunca quis saber dos seus negócios, nunca mais quis conversa depois do acidente que sofri. Passei os últimos anos fingindo que não tinha família, embora várias vezes meus pais tenham passado pelo meu apartamento, ou apenas espiado de longe. 
Meu pai... ele sempre foi um grande homem...
Será que agora, vou ao enterro? Ou é melhor enterrar também qualquer ideia de um dia reencontrar minha família? Com que cara posso ir ao enterro do meu pai, já que passei tanto tempo sem me comunicar com ele? 

Sinto-me como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Vou para casa. Só posso ir para casa. Para minha casa, para minha mãe. Será que ela abrirá a porta?

Comentários

  1. Que história interessante, não é difícil de acontecer, não é? Quantas vezes ouvimos relatos de filhos que se vão e que perdem o contato com seus pais. Triste! eu penso que ele deveria sim ir ao encontro da mãe.Sempre há tempo de retomar um vínculo afetivo.
    Abraço!
    Sonia

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  2. Achei exuberante este Capítulo do seu Conto e nada fora de propósito, pois muitos passam pelo dissabor do desagrado familiar.
    Feliz semana!

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