Várias Facetas, Várias Vidas - 6ª Parte, Capítulo 3
SUZANA
... seus olhos, meio escondidos ainda sob o cabelo que chega até os ombros, fitam os meus por uns instantes.
Aiaiai... será que fiz bem em tentar falar com ele?
De repente, ele ergue um pouco mais a cabeça:
- Me deixa! Ninguém se importa. Ninguém!
- Bem, estou me importando agora.
Mas o que estou fazendo, falando com um desconhecido? O sentimento de ternura, de compaixão, volta. Puxa, um ser humano, chorando sozinho na calçada. Não consigo deixá-lo ali.
- Quer ajuda para levantar?
- Não! Eu me viro sozinho, sempre me virei, suma!
Ao gritar desta forma e levantar, vejo seu rosto e tomo um leve choque. Está todo marcado, ele deve ter sofrido um acidente, porém há um bom tempo atrás. São cicatrizes, algumas grandes. Disfarço a surpresa, ele está levantando. Porém, perde o equilíbrio. Coitado, deve estar fraco também! Rapidamente o seguro, ele não é tão pesado assim.
Não consigo deixá-lo assim, simplesmente não dá. Logo ele senta de novo, parecendo desorientado.
- Vou buscar um copo de água.
- Não..deixe que eu... não se...
- Você não tá legal, fica aqui que volto já.
Saio e pego um copo de água mineral em uma barraquinha logo perto, com receio de não o encontrar mais quando voltar. Mas ele está ainda ali quando volto.
- Tome a água pelo menos.
- Obrigado.
Bem, pelo visto não vai mais me escurraçar. Preciso tirá-lo daqui, está ficando muito quente. Além disso, ele está usando uma jaqueta, escondendo os braços. Debaixo de um sol desses, vai acabar desmaiando.
- Consegue levantar?
- Sim..sim. Quero ir para casa.
Decido ampará-lo por um trecho, parece que ele vai cair a qualquer momento.
- Para onde quer ir?
- Lá.. lá naquela escadaria, subo por lá para ir ao meu apartamento.
- Quer comer alguma coisa?
- Vou.. vou comer algo lá em casa
Enquanto o acompanho, vejo Ana olhando atônita pela vidraça do restaurante. Faço um sinal para que ela não se preocupe, será que ela entendeu? Enfim, subo as escadarias ajudando o rapaz. Depois tento comer alguma coisa e converso com a Ana. Depois de uns bons minutos chegamos ao final da subida, e ele sinaliza que posso deixá-lo sozinho. Resolvo não avançar.
- Espero que melhores logo e que fiques bem. Preciso voltar ao trabalho agora. Tchau.. e sei que talvez não importe para você.. sou Suzana.
- Victor. Tudo bem, pode voltar ao trabalho. Vou ficar bem.
- Espero que sim.
Realmente espero que sim. Sinto uma empatia por este moço, que há tempo não sentia. Como se hoje estivesse aprendendo a me importar de verdade com alguém, como se estivesse aprendendo novamente o que significa compaixão. Arrisco a sorrir antes de ir embora, não vivem dizendo que há gente precisando de um sorriso para sentir-se melhor? Quem sabe ele esteja precisando.
Sinto-me mais leve e disposta. Mesmo que amanhã ele esteja de novo na calçada, mesmo que o que eu fiz hoje não mude a vida dele, espero que pelo menos eu tenha feito alguma diferença para ele.
Bem, ainda dá tempo para voltar ao trabalho sem me atrasar. Mas não dá mais tempo para ir ao restaurante. Meu estômago ronca... hum, tenho ainda uns minutos. Paro na barraquinha de lanches e compro um sanduíche natural e um suco de caixinha, mesmo não gostando muito. Eu deveria ter pego o número do celular da Ana. Espero que ela não esteja muito preocupada. Enfim, me entendo com ela depois.
próximo capítulo: 10/09
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