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Várias Facetas, Várias Vidas - 3ª Parte, Capítulo 3

SUZANA Pausa para pensar.  Não, esquece a pausa para pensar! Estou cansada de pensar, pensar... não dá para ficar só pensando!  A sério, cansei, caramba.  Vivo uma ilusão há anos, não deixando o relógio da vida continuar seu tique-taque. Parei o tempo para mim, mas o mundo continua girando.  Sinto-me em uma saída de estrada, isso mesmo.  Uma estrada barrenta, que de repente desemboca em uma via de trânsito, sabe aquelas vias de trânsito rápido? Pois é.  Eu sou o carro que fica na beirada, esperando que a rua esteja um pouco segura, tentando avançar mas com medo de pegar o asfalto e bater em alguém que está vindo. Os anos buzinaram várias vezes, mas eu só dei lado e continuei ali, engatada na primeira marcha e nada de pegar a via asfaltada.  Estou escrevendo aqui, no meu diário, com raiva, sim, raiva.  Nostalgia é uma coisa, mas estou me tornando um ser melancólico.  Essa semana não saí com aqueles amigos mai...

Várias Facetas, Várias Vidas - 3ª Parte, Capítulo 2

VICTOR Mais um dia chega, o sol invade o quarto (droga, deixei a janela aberta), sinto o calor em minhas costas. Eu não quero acordar, ontem fiquei em uma festa até tarde.. mas esse brilho do sol me obriga a levantar cedo, pela primeira vez em anos.  Ontem terminei a noite em um apartamento estranho, não lembro direito o rosto da moça.. foi uma aventura casual. Não sinto saudades, não sinto vontade de procurar o rosto dela no meio da multidão da cidade.  Sei que muitas que saíram comigo, foi por pena, ou por estarem tão loucas depois da balada como eu costumo ficar.  Esta ressaca de hoje está diferente... não costumo sentir arrependimento, nem dor, nada. Simplesmente levanto e vou conquistar alguns reais para poder sair de novo à noite. Mas hoje acordei com a consciência doendo. Lampejos da pessoa que já fui. A manhã de setembro, cuja lembrança me esforço tanto para afogar em álcool durante a noite, agora está forte e límpida em minha mente, trazendo de vol...

Várias Facetas, Várias Vidas - 3ª Parte, Capítulo 1

ANA      O dia seguinte à minha inconsequência extraordinária chegara. Levantei-me como sempre, arrastando-me até pia, rosto lavado, café forte, maquiagem e roupa decente,  para colocar de novo o pé na estrada. Suspirei fundo. Cheguei a rezar para meu dia ser diferente, hábito que eu havia quase abandonado.  Ouvindo o barulho de meus passos, fui saindo.Conferindo se tudo estava trancado, mergulhei de novo na cidade.     E em menos de meia hora, lá estava eu, em mais um cubículo na semiescuridão o que deixava a vista cansada, se bem que folhear revistas de fofocas de dois anos atrás(que vi de relance ao entrar)  não era lá um bom modo de querer passar o tempo. Entreguei à recepcionista uma ficha com os dados pessoais, sentei e esperei...     Fiquei analisando o ambiente. A recepcionista agora olhava fixamente para uma tela à sua frente, movimentando o mouse às vezes. Eu poderia ap...

Várias Facetas, Várias Vidas - 2ª Parte, Cap 03

SUZANA Todo dia é a mesma vida. Acordo à mesma hora, tomo o café da manhã sempre do mesmo jeito, vou ao trabalho com minha bicicleta sempre pelo mesmo caminho, almoço no mesmo lugar, volto ao trabalho e escuto as mesmas broncas e piadas há anos. Vou para casa, janto, televisão, jornal, computador com os fones de ouvido,café, dormir para acordar no dia seguinte com a sensação de estar revivendo o dia anterior. Eu sei, estou estagnada. E se escrevo desta forma monótona, é porque minha vida está assim.  Estou pensando em largar aquele grupo de jovens, as baladas não tem mais graça... não tenho mais idade para virar a noite, embora não tenha nem trinta anos ainda. E, definitivamente, o "ficar" nas "baladas" não tem mais nada a ver comigo.  Festas e inconsequência não me preenchem mais.Curto as festas, porém não posso viver de novo a adolescência.  Estou aqui de novo ouvindo música em frente ao computador, com os fones de ou...

Várias Facetas, Várias Vidas 2ª parte, Cap 02

VICTOR A tarde avança, nevoenta. Dia parado. Meu baseado rola entre os dedos, mas hoje estranhamente não chega à minha boca. Me perco, observando o céu cinzento, nos degraus da escadaria de sempre. Um pombo, ressentido pela tarde cinza, deixa-se ficar no peitoril de uma janela igualmente cinza. Tarde modorrenta.... por isso que meus dias se resumem a esperar pela noite. Mesmo o colorido dela, sendo artificial no meu caso.  Sim. Eu sei que fujo da vida, da realidade... mas meus dias são nevoentos, desde aquela manhã de setembro, que acabou com meus sonhos mais caros e deixou minha vida nevoenta e cinza, como esta tarde que continua avançando. É difícil até para mim mesmo expressar como me sinto, há tempos não penso nisso. As pessoas continuam passando sem me notar, mas hoje há menos movimento. Uma chuva fina começa a cair, puxo meu capuz, me escondendo mais ainda da cidade. A noite está chegando.  Mais uma noite para me entregar de corpo ...

Várias Facetas, Várias Vidas - 2 parte, Cap 01

ANA A decisão de não recorrer a meus pais era certa, um retrocesso eu não admitiria. M e smo na condição em que eu estava. Mas era revoltante...faculdade, horas debruçada sobre livros, noites elaborando extensos trabalhos.. apresentação do tcc, defendendo tese; pós-graduação, estágio.. para ser demitida, sem justa causa, depois de cinco anos trabalhando? E pior, o tempo do seguro-desemprego acabando e eu ainda sem conseguir trabalho. Aquele dia, eu havia reservado para não pensar nisso, mas estava difícil. Pior era ver um monte de vagas sendo oferecidas, em jornais, cartazes, outdoors, e ouvir gente dizendo que "só não trabalha quem não quer". Alôoo? Eu sempre QUIS trabalhar! Não tenho culpa se a empresa teve de cortar funcionários e por algum motivo não totalmente revelado - já que eu sempre me dediquei bem ao que fazia - meu nome foi arrolado na lista de funcionários demitidos. Droga. A tarde estava acabando, e mesmo na paz da praça, me via defrontad...

Várias Facetas, Várias Vidas - 1ª Parte, Cap 03

SUZANA O tempo passou.  E eu fiquei.  A triste história de uma criatura que não teve iniciativa.  Suzana, seu segundo nome é inércia.  Maldita manhã de setembro, que me trouxe a nua  e fria verdade, que passei tanto tempo escondendo!  A vida passou, as pessoas que amei partiram, cuidaram cada qual de sua vida, tomaram seus caminhos...  E eu fui ficando. Por pura nostalgia, agarrada ao ideal da juventude, impedindo-me de ser tragada, junto aos de minha idade, pela engrenagem da vida que julgava cruel. Tínhamos planos e sonhos, ideais tão bonitos para a época! Mas sonhos não enchem barriga... Eles casaram, mudaram de emprego, saíram.. até os que pareciam pouco promissores estão felizes,realizados. Eu fiquei, parei no tempo.  Saudades das alegres reuniões e festinhas,cervejas, aniversários, pedaladas, a alegre inconsequência dos finais de semana. O nosso grupo foi se modificando, alguns saíam para fazer suas vidas, outros...