Várias Facetas, Várias Vidas - 3ª Parte, Capítulo 2
VICTOR
Mais um dia chega, o sol invade o
quarto (droga, deixei a janela aberta), sinto o calor em minhas costas. Eu não
quero acordar, ontem fiquei em uma festa até tarde.. mas esse brilho do sol me
obriga a levantar cedo, pela primeira vez em anos.
Ontem terminei a noite em um
apartamento estranho, não lembro direito o rosto da moça.. foi uma aventura
casual. Não sinto saudades, não sinto vontade de procurar o rosto dela no meio
da multidão da cidade.
Sei que muitas que saíram comigo, foi
por pena, ou por estarem tão loucas depois da balada como eu costumo ficar.
Esta ressaca de hoje está diferente...
não costumo sentir arrependimento, nem dor, nada. Simplesmente levanto e vou
conquistar alguns reais para poder sair de novo à noite. Mas hoje acordei com a
consciência doendo. Lampejos da pessoa que já fui. A manhã de setembro, cuja
lembrança me esforço tanto para afogar em álcool durante a noite, agora está
forte e límpida em minha mente, trazendo de volta a dor, vívida como se tudo
estivesse acontecendo de novo.
Hoje não tenho vontade de dar o
tradicional tapa no baseado. Estou pensando se vou tomar café da manhã, e se
ainda tenho alguma camiseta limpa no que chamo de armário.
Preciso de algo mais forte para tentar
esquecer. Ou será que já é hora de encarar a realidade de vez? Estou ficando
cansado... Faz cinco anos que tento renegar o que fui, que tento tapar as
feridas, criar um mundo próprio.
A dor hoje parece mais forte, ressurgindo das profundezas do ego, suplantando a barreira do álcool e das baladas.
E pela
primeira vez, não tento fugir. Revivo as cenas daquela manhã de setembro
mais uma vez, sem entorpecimento. Até a ressaca já foi embora. Acho
que pela primeira vez em cinco anos estou acordado de verdade.
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