Várias Facetas, Várias Vidas - 10ª Parte, Capítulo 03
SUZANA
A voz dele impede que eu devaneie novamente.
- Victor.. é isso, né?
- Isso. Você lembrou melhor que eu.
Eu lembrava o nome, na verdade. Mas fingi não lembrar de cara... sei lá por que razão.
- Você quer mesmo me ouvir?
- É o mínimo que posso fazer.
- Tudo bem - Respiro fundo. Este final de dia foi, está sendo difícil - Eu
trabalho em uma empresa há cinco anos. Um emprego bom, uma equipe que se
relaciona muito bem, muito bem mesmo. E hoje.. bem...
Ele nem me conhece direito, nem tem obrigação de saber.. mas ele quer ouvir. E preciso falar com alguém. Mesmo sendo um cara quase estranho para mim, preciso continuar falando. As lágrimas começam a cair, mas agora que comecei a contar, vou terminar:
- Hoje recebemos a notícia de que nosso chefe, o dono da empresa, faleceu em um acidente horrível, quando voltava para cá.
Victor assente com a cabeça, de um modo quase formal.
- Ele devia ser muito importante para você, não?
Ele não faz ideia de como!
-Sim.. foi... ele sempre acreditou em mim e me incentivou, mesmo quando
eu própria não acreditava... Eu tive um período,do qual ainda não me
livrei, em que minha autoestima ficou muito baixa, eu estava achando
minha vida uma porcaria, um marasmo, não sabia mais o que queria. E ele
percebeu, conversou comigo. Sempre me tratou como uma filha.
- Devia ser alguém realmente bom, para você estar tão triste.
Linguagem fática, penso eu. Victor quer interagir, mostrar que está ali ouvindo. Então, continuo a falar.
- Pois é... e..acho que o corpo chega amanhã.. não sei se tenho coragem
para ver o enterro, mas preciso.. Se eu tivesse falado tudo o que
sentia, falado de toda minha gratidão quando pude..
-Sr. Geraldo... coitado!
Me permito chorar um pouco. Levanto a cabeça e vejo Victor com uma expressão intrigada.
- Suzana... Geraldo? Qual o sobrenome dele?
- Martins....
Victor arregala os olhos. Parece estar passando mal. Não como da vez em que o conheci. É diferente.
- Victor.. você está bem? O que foi?
- Nada, Suzana. Lembrei de algo agora. Eu... você se importa? Preciso ir agora.
Esse cara é estranho. Mas gosto dele.
- Não, Victor. Pode ir... vou para casa antes que escureça demais, estou de bicicleta e preciso avisar minha mãe.
- Tchau, então.. a gente se vê.
- Ok.
Lentamente, dirijo-me à bicicleta encostada no banco e vou embora. Uma olhadela discreta para trás confirma que Victor ainda está sentado no banco.
Será que ele conhecia o Sr. Geraldo? Bem, a empresa está há anos na cidade. É possível. Talvez seja até parente, ou tenha amigos - embora ele não pareça do tipo que tem muitas amizades - que conheciam meu chefe.
Sei lá. Agora é a hora de ir para casa. Preciso avisar minha mãe,e não sei como vou fazer isto da melhor forma. Eles eram velhos conhecidos, minha mãe o tem em alta conta.
Preciso controlar minha vontade de chorar. Não posso fazer isto com a noite chegando, não posso embaçar minha visão nem deixar de prestar atenção ao trânsito. Hora do rush, barulho, buzinas. Não sei se o barulho é mais alto na cidade ou dentro da minha cabeça.
O Sr. Geraldo está morto.
Ele está morto.
Morto.
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