Várias Facetas, Várias Vidas - 8ª Parte, Capítulo 02

VICTOR



Deixo os álbuns de fotos em cima da caixa de som,e a guita em cima da cama. Não a toco mais, porém tenho vontade de trocar as cordas, quem sabe para dedilhar mesmo que só com a mão esquerda, de vez em quando...ah, mas para que? Para continuar preso ao passado? 
Engraçado, passei cinco anos preso ao passado e hoje isto está me incomodando. 
A luz do sol se infiltra timidamente pela janela do meu pequeno quarto e me acorda para o fato de ainda ser de dia. Pego meus óculos de sol e resolvo sair um pouco. 
A rua está fervilhando, já são quatro horas da tarde. Não ando de cabeça baixa hoje, nem fico colocando a mão no bolso o tempo todo, se alguém me vir sem minha mão direita que se dane, afinal passo nesta mesma rua há cinco, cinco anos! e ninguém dá importância. Ninguém a não ser a tal da Suzana que sei lá por que resolveu dar uma de samaritana esses dias atrás. Coloco a mão no bolso e sinto-o vazio, estava pensando em pegar um baseado mas não vai dar agora.
- Ei, Victor! 
Viro-me em direção à voz
- Vander?
- Cara, é você mesmo! 
- E você..não mudou nada. 
- Você também nem tanto..cara, Victor, me perdoa, eu sumi! 
- Dá nada. Eu também teria sumido se fosse você. 
- E o que te fez sair de casa hoje?
- Eu sempre saio. 
- Mas é a primeira vez que vejo você com a cabeça erguida... se bem que faz um bom tempo que não te vejo. 
- Pois é. Hoje resolvi sair pelo prazer de sair. 
Nossa. Há quanto tempo não usava a palavra "prazer". "Prazer",repito para mim mesmo novamente. Palavrinha fácil de falar, que flui tão bem. 
- Victor... você.. está fazendo o que da vida agora?
- Na real? Faço uns bicos, passo parte do dia sentado naquelas escadarias ali atrás e se tenho grana vou dançar a noite toda. Mas faz duas noites que estou apenas em casa. 
- Estou mais aliviado de te encontrar assim.. falando um pouco mais e...até agora estamos conversando sem conflitos. 
- Verdade, Vander... vou te dizer... é a primeira vez que falo tanto! 
- Vou tomar vergonha na cara e vir mais vezes para cá.. vamos sair juntos para jogar conversa fora? Quero ver você revivendo, sempre te considerei muito, a sério! 
- Vander...devagar...estou ainda meio grogue de tanto tempo sofrendo com as recordações do..daquele..
- Sim. Eu sei que é difícil, Victor. Ainda é para mim. Mas precisamos viver, sabe? Olha, vou ter de ir agora.Toma aí meu número de celular. Sei que você não tem telefone, mas quem sabe, né? 
Vander se afasta e eu mergulho de novo em meus pensamentos...Ele tem razão... perdi uma mão, perdi a vida que conhecia e que amava...mas ainda estou aqui, não é? Dói, dói muito, toda noite maldormida, todo maldito pesadelo, todo riff de guitarra me lembra que fui expulso daquele mundo. Mas apesar de tudo estou aqui, e pela primeira vez tenho vontade de continuar vivo.

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